14 fevereiro, 2011

ROCK SOLIDÁRIO



No próximo final de semana, mais precisamente no dia 19 de Fevereiro de 2011, sábado, apartir das 16:00, oito bandas de Rock n' Roll subirão no palco do Clube dos Coroados em Valença/RJ para fazer não só uma apresentação, mas um "ROCK SOLIDÁRIO". Uma apresentação beneficente das bandas: The Black Bullets, O Celeiro das Rochas, Os Cara Velho, Gadernal, Sotton, D3, Vermillion Theory e Pedro Pirata e os Alienígenas em prol das vítimas das fortes chuvas que atingiram às cidades da região serrana do estado do Rio de Janeiro, em janeiro último. Vítimas que diga-se de passagem, ainda precisam e muito de ajuda.

Os ingressos para o "ROCK SOLIDÁRIO" já estão a venda no Supermercado Venturão em frente ao Banco Bradesco, com opções de KIT ÁGUA ou KIT HIGIENE, no valor de R$ 4,90. É só ir direto no caixa. No dia do evento, leve o ingresso com a notinha fixada.

Meu amigo de escola e bate-papos musicais, Alexandre Fonseca, escreveu e não poderia escrever melhor, no seu Blog "CAVERNA DOS VIRABOSSAS", um texto brilhante sobre o evento e entitulou: "ROCK'N'ROLL E SOLIDARIEDADE". Pedi autorização para republicá-lo aqui na íntegra! Acho que não há mais o que ser dito depois de ler o que ele escreveu...



"ROCK'N'ROLL E SOLIDARIEDADE"
(Por Alexandre Fonseca)

Ao longo de sua turbulenta história, o rock'n'roll adquiriu o estereótipo, ora procedente ora injusto, que combina rebeldia inconsequente com alienação. Construída pela mídia, absorvida acriticamente por fãs e detratores e, às vezes, corroborada pelo comportamento dos próprios músicos, a imagem pública dos rockers, desde os idos tempos de Elvis, Chuck Berry e Jerry Lee Lewis, sempre esteve associada ao consumo excessivo de drogas e álcool, à promiscuidade sexual, à frivolidade do grand monde e ao total descomprometimento com causas políticas e sociais. O cancioneiro de protesto e as trajetórias politicamente militantes de gigantes como Bob Dylan, John Lennon, Neil Young, Bob Marley e outros eram vistos como aberrações em um meio onde predomina a futilidade e o desregramento.

Entretanto, estereótipos são estereótipos. Por mais que, em alguns aspectos, reflitam parte da realidade, são, em geral, construções surreais, superdimensionadas e, não raro, distorcidas da mesma. Muitas vezes, esquecemos que nossos ídolos são gente de carne e osso e também têm a capacidade de se sensibilizarem com o sofrimento alheio e de se envolverem em causas humanitárias, mesmo que tal envolvimento seja movido por um certo "bom mocismo" ingênuo ou por sentimentalismo burguês, ou ainda por egocentrismo, autoindulgência e esforço de autopromoção, e seja alvo do oportunismo da mídia e de empresários e governos mal-intencionados.

Fato é que, se ineficaz para erradicar as causas mais profundas dos problemas para os quais se volta, o espírito "nós vamos salvar o mundo" do rock'n'roll consegue, ao menos, despertar a atenção dos jovens para questões que, normalmente, não fazem parte do seu universo cotidiano e aliviar pontual, momentanea e parcialmente os efeitos de tragédias naturais, colapsos econômicos, guerras e epidemias que atingem milhões de pessoas no mundo inteiro. Justiça seja feita: neste caso, os rockers demonstram um poder de mobilização e comoção popular superior aos da maioria das organizações governamentais e não governamentais.

E nada melhor representa o "bom mocismo" do rock'n'roll do que os concertos beneficentes. Nesta seara, como em tantas outras, o pioneirismo coube aos Beatles, ou a um beatle em particular. George Harrison já havia deixado o quarteto de Liverpool e gozava os louros do sucesso do album triplo "All things must pass", quando, em 1971, foi convidado por seu mentor Ravi Shankar, sitarista indiano, a organizar o "Concert for Bangladesh", em prol dos refugiados da guerra de independência daquele país asiático. Com participação de Shankar, Bob Dylan, Eric Clapton, Ringo Starr, Billy Preston, Leon Russell, dentre outros, o evento lotou as dependências do Madison Square Garden em Nova York, no dia primeiro de agosto de 1971. A grande atração do show, além do próprio Harrison, foi Bob Dylan que precisou de apenas vinte minutos para "hipnotizar" o público com sua música poetica e políticamente inspirada. E ele, que já era grande, tornou-se ainda maior depois disto.

Seguindo o exemplo dado por seu ex-colega, Paul McCartney promoveu o "Concert for the people of Kampuchea", em benefício das vítimas da guerra civil no Cambodja. Wings (a banda pós-Beatles de McCartney), Queen, The Who, The Clash, The Pretenders, dentre outros, subiram ao palco do Hammersmith Odeon, em Londres, para quatro dias de show (26, 27, 28 e 29), em dezembro de 1979.

Em apoio às pesquisas sobre esclerose múltipla, doença que então acometia o baixista Ronnie Laine (ex-Small Faces e ex-The Faces), seus amigos protagonizaram os "ARMS Charity Concerts", uma série de shows, ocorrida na Inglaterra e nos EUA, em setembro de 1983, que possibilitou ao público presenciar algumas das raras oportunidades em que os membros da "Santíssima Trindade" britânica da guitarra - Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page -, desafetos confessos uns dos outros, tocaram juntos.

O mais célebre dos concertos beneficentes ocorreu em julho, 13, de 1985. Estimulado pelo sucesso comercial dos singles "We are the world" e "Do they know it's Christmas", que reuniram dezenas de astros pop americanos e britânicos, em favor das vítimas da fome na Etiópia, o irlandês Bob Geldolf organizou o "Live Aid", com shows simultâneos em várias cidades do mundo, destacando-se os que se realizaram no estádio JFK, na Filadélfia, e Wembley, em Londres. O evento foi marcado por algumas das cenas mais antológicas da história do rock: a reunião de bandas clássicas, como Led Zeppelin, Black Sabbath e Crosby, Stills, Nash & Young, e uma súbita reaparição do ex-beatle Paul McCartney, até então afastado dos palcos desde o assassinato de seu ex-parceiro John Lennon. Mesmo enfrentando problemas técnicos em seu microfone, McCartney, em apenas cinco minutos de apresentação, foi acompanhado em coro pela platéia de Wembley ao entoar a emblemática "Let it be" dos Beatles, no encerramento do show. Ele, que já era grande, tornou-se ainda maior depois disto.

Vinte anos depois, Geldolf e Bono Vox, vocalista da banda irlandesa U-2, reeditaram o "Live Aid", sob o nome de "Live 8", com o objetivo de pressionar os líderes do G-8 (grupo das sete economias mais industrializadas do mundo, mais a Rússia) a erradicar a pobreza mundial. Foram oito shows em diferentes cidades, no dia dois de julho de 2005, mas o do Hyde Park, em Londres, concentrou as atenções, devido, sobretudo, à apresentação de Paul McCartney acompanhado do U-2, em uma versão de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", e à reunião da clássica formação setentista do Pink Floyd. Pondo de lado suas desavenças pessoais e profissionais, o baixista Roger Waters, o guitarrista David Gilmour, o tecladista Rick Wright e o baterista Nick Mason executaram um set de "apenas" cinco músicas. Se já eram grandes, tornaram-se ainda maiores depois disto.

Se servem de exemplo por suas habilidades musicais e estilo de vida anticonvencional, os artistas de rock também inspiram seus fãs a llhes seguirem os passos no quesito solidariedade. Os rockers valencianos que o digam. No próximo dia 19, sábado, no Ginásio do Clube dos Coroados, farão a sua própria versão de um concerto beneficente, em favor das vítimas das fortes chuvas que atingiram às cidades da região serrana do estado do Rio de Janeiro, em janeiro último.

A proposta deste evento nasceu espontaneamente em múltiplas frentes. Sábado destes, estávamos - Wilson Fort, Giovanni Nogueira, Fred Ielpo e este que vos escreve - em uma típica conversa de botequim de uma manhã de sábado, quando fomos abordados pelo maestro Paulinho Nogueira, "o Paulinho do Trombone", que sugeriu que organizássemos alguma forma de mobilização para ajudar os desabrigados das chuvas. Horas depois, à noite, enquanto assistíamos à apresentação da The Black Bullets no coreto do Jardim de Cima, Igor Almeida, guitarrista, vocalista e compositor da banda Celeiro das Rochas, pediu-me ajuda para promover um show com aquela mesma intenção. E, na manhã seguinte, em outra conversa de bar, Felipe Martins, guitarrista da TBB, revelou-me ideia semelhante. Assim, de fontes distintas mas convergentes, surgiu o projeto "Rock Solidário" pró-região serrana.

Em poucos dias, providenciamos toda a infraestrutura do evento, com apoio inestimável do Clube dos Coroados, na pessoa de um de seus diretores, Márcio Manhães, e das poucas, mas imprescindíveis pessoas físicas e jurídicas que se dispuseram a nos ajudar e que merecem ser citadas: La Mayson, Neovik, Doce Lar, Gráfica Duboc, Miliartes, Venturão Supermercados e Cláudio Sarkis. Enviamos convites para várias bandas de Valença e cidades vizinhas e oito delas nos responderam positivamente. Elas fizeram a parte que lhes cabia. Agora é a nossa vez. Vamos comparecer em massa, no Ginásio dos Coroados, 19 de fevereiro, a partir das 16 horas, e unir o útil ao agradável: ajudar o próximo e ouvir o bom e velho rock'n'roll pelas mãos e vozes destes músicos talentosos da nossa terra.

As bandas terão apenas vinte minutos, o que corresponde a quatro ou cinco músicas, cada uma. Mas - assim como Dylan em 1971, McCartney em 1985 e Pink Floyd em 2005 -, Pedro Pirata e os Alienígenas, Vermillion Theory, Sotton, D-3, Gadernal, Os Cara Velho, Celeiro das Rochas e The Black Bullets, que já são grandes, tornar-se-ão ainda maiores, como artistas e como seres humanos. Quarenta anos após "Bangladesh", George deve estar sorrindo agora...
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