01 janeiro, 2006

OUVIDO AFINADO (Parte Final)

Aí esta a parte final da matéria. Espero que tenham gostado:

A ÁREA DE BROCA, NO LADO ESQUERDO DO CEREBRO, É RESPONSÁVEL PELA LINGUAGEM VERBAL E POR PROCESSAR A SINTAXE DA MÚSICA

Embora a tarefa experimental não requeira absolutamente que se preste atenção à música, mostramos que a rapidez da identificação do fonema dependia da função musical do acorde: os tempos de identificação dos fonemas /di/ e /du/ mais curtos foram observados para os acordes de tônica. Em outras palavras, embora os ouvintes estivessem atentos ao fonema, reagiam com rapidez quando o acorde que o acompanhava era tônico, mais comum na música ocidental. Ao contrário, quando o fonema correspondia a um acorde que não havia sido antecipado inconscientemente, era porque o cérebro antecipara um acorde correspondendo às regras musicais usuais.


EXPERT SEM SABER

O mesmo tipo de teste pode ser feito pedindo que os participantes decidam com a maior rapidez possível se um acorde contém ou não uma nota dissonante, se as notas que o constituem são tocadas juntas ou, ainda, se o acorde é tocado com um timbre de piano elétrico ou de piano acústico. Vários estudos que realizamos mostraram que os ouvintes adultos ocidentais são implicitamente sensíveis a tênues diferenças de funções musicais. Além disso, o processamento cognitivo se efetua de forma bastante rápida, e as respostas continuam idênticas mesmo quando a música é tocada em andamento acelerado.

As aptidões musicais dos ouvintes sem formação explícita se revelaram surpreendentes em numerosos outros estudos, quaisquer que fossem os aspectos da percepção que abordamos, e isso mesmo quando foram elaboradas situações experimentais complexas concebidas para enganar seu ouvido musical.

Assim, num outro tipo de experimento, apresentamos peças musicais (melodias ou seqüências de acordes) que interrompíamos ao acaso; os participantes deviam avaliar numa escala de 1º a 7º grau de acabamento da melodia no momento da parada. Esse método permite avaliar a precisão com a qual o ouvinte segue o desenrolar de um trecho cuja complexidade fizemos variar. Pensávamos encontrar diferenças evidentes entre ouvintes profissionais e iniciantes. Mas os resultados dos dois grupos foram igualmente bons, inclusive quando as peças testadas eram complexas (como um prelúdio em mi maior de Chopin).

Nossos resultados estão de acordo com as conclusões de vários estudos neuropsicológicos recentes, em que a gravação dos potenciais evocados (mede-se acorrente elétrica na superfície do crânio dos pacientes) revela a presença de picos anormais quando músicos e não-músicos ouvem acordes impróprios no contexto musical. Estudos realizados com técnicas de imageamento cerebral sugerem também que a área de Broca, conhecida por seu papel no processamento da linguagem verbal, é muito ativa no processamento das estruturas sintáticas musicais, inclusive em ouvinte não-músicos. Isso mostra que os músicos não são os únicos a usar as áreas da linguagem do hemisfério esquerdo para processar a música.

Ao que tudo indica, a simples escuta da música torna o cérebro “músico”, e as aptidões musicais surpreendentes dos não-músicos demonstram a grande plasticidade do cérebro humano no domínio musical. Graças a essa plasticidade, qualquer um pode se tornar especialista num campo que lhe é familiar, mesmo que permaneça incapaz de verbalizar as estruturas musicais percebidas.

A MÚSICA TONAL

A música ocidental tonal se baseia num alfabeto de 12 notas organizadas em 24 acordes e em 24 tonalidades principais. Um acorde corresponde à execução de três notas simultâneas (dó-mi-sol para o acorde dó maior, por exemplo). Uma tonalidade corresponde a um subconjunto de sete notas (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si para a escala de dó maior). Existem organizações hierárquicas no interior dessas tonalidades entre os acordes e entre as notas. Algumas notas e alguns acordes atraem mais a atenção que outros: funcionam como “pontos de partida” para a percepção. O acorde de “tônica” (construído sobre a primeira nota da tonalidade) é o mais atraente, superando o acorde de subdominante (construído sobre a quarta nota da escala). Assim, na tonalidade de dó maior, o acorde dó maior é um ponto de partida mais importante para a percepção do que o acorde fá maior. Essas diferenças correspondem às funções musicais dos acordes. Para compreender a música ocidental é necessário diferenciar essas funções musicais.
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